A desmistificação da Medicina Sagrada: uma entrevista com Mestre Rapé Gesileu Phasphy Ninawa
Até hoje, equívocos e opiniões preconceituosas em relação à medicina natural, especialmente a praticada pelos povos indígenas, ainda estão profundamente enraizados em nossa sociedade. Enquanto alguns a consideram menor e imprecisa, afirmando que não há ciência por trás das crenças e práticas desses povos e de suas curas, procedimentos medicinais e rituais, outros simplesmente banalizam o que é sagrado e digno de respeito, transformando o conhecimento secular e o esforço devocional em mera desculpa e caminho para mergulhar num mundo totalmente diferente de consumo irracional de substâncias ilícitas.

Unindo esforços na esperança de inverter estes ciclos de desinformação e preconceitos, Amanda Viana dedicou tempo a visitar o Acre, um estado no norte do Brasil, e a aprender mais sobre o património e as tradições de algumas das comunidades nativas que não só fazem uso da medicina sagrada em cerimónias e como parte da sua vida quotidiana, como também criam e produzem as suas próprias receitas.
R: Gesileu, qual é a sua relação com o rapé? É um 'mestre', um pajé dessa medicina?
G: O termo "mestre" ou "xamã" é uma designação muito forte. Na verdade, eu não me considero um 'mestre' do rapé porque ainda tenho muito a aprender com essa medicina. Sou um estudante de rapé, um estudioso dessa medicina tão importante e sagrada para os povos indígenas da Floresta Amazônica do Acre. Durante nosso estudo, aprendemos que os termos 'mestre' ou 'pajé' são títulos que não damos a nós mesmos. Se ouvirmos alguém dizer: "Eu sou mestre, eu sou pajé", é o primeiro alerta para desconfiarmos. Nós não nos chamamos dessa forma. Agora, se é outra pessoa, se é você, que me chama 'mestre' ou 'pajé' de rapé, com toda a humildade, eu aceito, porque é você, outra pessoa, que me está a definir dessa maneira. Mas se me perguntarem se eu sou 'mestre' ou 'pajé' de rapé, eu vou dizer: "Não, não sou".

R: Fale-nos um pouco da sua ascendência e da sua relação com os povos indígenas.
G: Sou caboclo, ou seja, a minha ascendência é constituída por uma mistura de brancos e indígenas. A minha linha de ascendência é composta, do lado da minha mãe, por povos originários da Amazónia com alguma mistura de brancos e, do lado do meu pai, por povos indígenas originários do nordeste do Brasil. A minha mãe tem antepassados indígenas da Amazónia, mas devido à mistura com os brancos que ocorreu após a invasão europeia, não sei dizer com exatidão de que grupo étnico provém. Meu pai é descendente do povo nordestino Xukurus, cuja aldeia está localizada próxima ao município de Pesqueira, em Pernambuco. Meus bisavós paternos pertenciam a essa etnia.
Nasci no Acre, no meio da floresta amazónica. Como meus pais eram seringueiros, desde muito cedo tive uma ligação direta e intensa com a floresta. Vivia literalmente imerso na floresta, sem saber o que era uma cidade, um município ou mesmo uma vila. Só aos sete anos é que o meu pai me levou à cidade pela primeira vez, e essa foi uma experiência muito particular para mim. A primeira cidade que visitei foi a cidade de Xapuri, que, apesar de ser muito pequena, me impressionou muito e me marcou para sempre.
R: Qual foi a primeira aldeia indígena que visitou e quais são as aldeias com que ainda mantém contacto?

G: Desde muito cedo, tenho um contato muito próximo com as comunidades indígenas aqui no Acre. Justamente por isso, posso dizer que conheço quase todas as etnias deste estado, das quais cerca de catorze povos indígenas diferentes são oficialmente reconhecidos. Devo dizer que tenho uma relação mais próxima e muito especial com as etnias indígenas do tronco lingüístico Panu, mais especificamente com os Huni Kuin ("o povo genuíno"), os Shanenawa ("o povo do pássaro azul") e os Yawanawa ("o povo do javali"). Foi com os Huni Kuin que fiz a minha iniciação rapé.
Meu primeiro contato com a medicina do kampum (também chamado de kambô)3 se deu com o povo Shanenawa, cuja aldeia fica próxima à cidade de Feijó, ou seja, do outro lado da cidade. Depois de algum tempo, tive uma longa relação com o povo Yawanawa. Com esse povo, tive também a oportunidade de aprofundar meus estudos sobre o remédio ayahuasca, que eles chamam de uni, e sobre os cantos da floresta, que permitem a comunicação com os seres vivos que ali estão.
Originalmente publicado em: https://www.fondationalaindanielou.org/intellectual-dialogue/transcultural-dialogues/transcultural-dialogues-n10-may-2022-spring-equinox-3/
Perfeito para meditação, o rapé Caboclo Gesileu permite sentir a energia da natureza, aguçando os sentidos e acalmando a mente. Além disso, como você já sabe, o rapé é um excelente remédio para quem tem problemas respiratórios, proporcionando um sono calmo, tranquilo e reparador.
